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A Lendo de Mafumeira Vasconcelos Monteiro    
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A Lendo de Mafumeira

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A Lendo de Mafumeira

A Portuguese Story

 

 

 

 

 

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Nas profundezas da floresta vive a mais alta de todas as árvores. Os seus ramos grossos e repletos de folhas estendem-se pelo céu azul e proporcionam-nos oxigénio para respirarmos. Os troncos são bastante largos e muitas destas magníficas e gigantes árvores fazem parte da floresta há centenas de anos.

Estas majestosas árvores são conhecidas como as Mafumeira e existem muitas histórias que reivindicam que as Mafumeira possuem um espírito que protege a floresta. Uma dessas histórias era contada por um velho homem chamado Adão.

Um dia, há muito, muito tempo, o Adão e dois jovens amigos decidiram que iriam ganhar o seu dinheiro cortando árvores na floresta e vendendo a madeira a agricultores e construtores locais. Os três amigos construíram uma pequena cabana na floresta e uma manhã saíram para ir cortar a sua primeira árvore. Uma árvore dava madeira suficiente para viverem confortavelmente o resto do mês. Os agricultores estavam satisfeitos e os construtores também. E por cada árvore que mandavam abaixo os três amigos plantavam dois rebentos que um dia cresceriam e tornar-se-iam numa majestosa Mafumeira.

– É assim que mantemos a floresta saudável e feliz –, dizia Adão com um sorriso sempre que plantava um rebento na terra. – Se cuidarmos da floresta, a floresta cuidará de nós.

Adão e os seus amigos sentiam-se felizes na floresta. Adoravam a sua pequena cabana e gostavam do seu trabalho. Apenas cortavam uma Mafumeira por mês e faziam sempre questão de plantar rebentos para mostrarem respeito pela floresta. Foi então que, sem que Adão se apercebesse, as coisas começaram a mudar.

Os amigos de Adão começaram a olhar para as árvores de uma forma diferente. Um deles perguntou:

– Porque é que nós cortamos apenas uma árvore por mês quando podíamos cortar muito mais?

– Podíamos ganhar muito dinheiro se cortássemos mais árvores – disse outro.

Adão ficou muito angustiado ao ouvir os seus amigos a falar daquela maneira porque respeitava a floresta e não queria cortar mais árvores do que eram necessárias. Mas não conseguiu convencer os amigos que juntaram dinheiro e compraram um tractor grande e mais equipamento de corte.

Partiram em direcção à floresta com o seu novo equipamento e começaram a cortar árvores, umas a seguir às outras. Os imponentes troncos caíam ao chão uns atrás dos outros e, à medida que a floresta era inundada de sons de choque e lamento das árvores Mafumeira, o coração de Adão enchia-se de tristeza.

– O que é que estão a fazer, meus amigos? – perguntou ele. – Não podemos desrespeitar a floresta desta maneira.

Mas os dois amigos não lhe davam ouvidos; ao invés, continuavam a abatê-las, a desnudá-las e a carregá-las para cima do tractor, umas a seguir às outras. Só conseguiam pensar no dinheiro; já não se preocupavam com a floresta.

Os dois amigos tornaram-se tão hábeis a abater as majestosas árvores Mafumeira que, em pouco tempo, Adão já não conseguia substituir as árvores abatidas por rebentos suficientes. Sabia que o que os amigos estavam a fazer estava errado mas não conseguia fazer com que eles parassem, pois estavam cegos pela ganância. Tinha a certeza de que caminhava sozinho no seu objectivo para evitar que a floresta fosse desrespeitada e estava rapidamente a perder o ânimo.

Mas ele não estava sozinho. O espírito da Mafumeira estava a observar e a ouvir, e estava muito zangado por estarem a cortar as árvores de forma tão desrespeitosa.

Naquela noite, enquanto Adão estava deitado e acordado na sua cama, na pequena cabana, ouviu o ruído das majestosas árvores a abanar na floresta e tinha a certeza que sentiu uma presença estranha. Na brisa conseguia decifrar palavras sussurradas na noite. «Não tratarás a floresta assim. Não ficarás impune. Eu sou o espírito da Mafumeira e estou aqui para proteger e preservar as árvores e os animais.

No dia seguinte as coisas não correram como planeadas para os amigos de Adão. Ambos acordaram com uma horrível dor de barriga e nada do que fizessem parecia aliviar a dor. Mas apesar de todo o desconforto, a ganância arrancou-os da cama e certificou-se que eles levavam o equipamento e que estavam preparados para o dia que os esperava. Mas, o tractor não pegava.

– Não me importo com o tractor –, disse um deles. – Eu hoje ainda vou cortar árvores.

– E eu não me importo com a dor de barriga –, disse o outro enquanto pegava no machado e preparava-se para mandar abaixo a Mafumeira mais próxima dele.

O pobre Adão suplicava aos amigos para pararem o que estavam a fazer e para passarem o dia a plantar rebentos na floresta, mas nenhum deles lhe dava ouvidos.

Assim que levantaram os machados, um forte vento invadiu a floresta. As árvores Mafumeira oscilaram, rangeram e gemeram ao vento e, de repente, começou a chover intensamente. O vento e a chuva destruíram a cabana e viraram o tractor. Depois um dos amigos deixou cair o machado e fez um corte feio na perna. O vento soprava cada vez mais forte até que já não restava nada da cabana a não ser algumas tábuas soltas. O tractor foi levado pelas águas de um rio que passava ali perto, que galgou as margens, e foi então que os amigos de Adão de repente começaram a ficar com muito medo.

– Temos de fugir daqui! – gritavam eles. – A floresta destruiu todo o equipamento, já não nos resta nada!

Os dois amigos fugiram da floresta o mais rápido possível e nunca mais regressaram.

Apesar de temer pela sua vida, Adão permaneceu onde estava e deixou que o vento o empurrasse e que a chuva lhe caísse em cima, lhe ensopasse a roupa e que ficasse com frio, todo dorido e ferido.

– Não sairei da floresta!– gritou ele bem alto. – Ficarei aqui a plantar novos rebentos para substituir as árvores que os meus amigos gananciosos mandaram abaixo! Ficaria a fazer isto até morrer e nada me vai demover!

Foi então que, de repente, o vento acalmou e a chuva parou abruptamente. As nuvens desapareceram e o sol começou a brilhar e secou a terra.

Adão estava grato e feliz com o fim da tempestade e assim que recuperou a força e secou a roupa começou a plantar rebentos na terra. Trabalhou arduamente o dia todo e cantarolou o tempo todo. Plantou muitos rebentos e cada vez que o fazia rezava que o rebento crescesse e que se tornasse numa majestosa Mafumeira.

Adão trabalhou na floresta durante todo o dia e toda a noite, plantando rebentos até que já não aguentava mais com tanto cansaço e tanta fome. Ficou com medo porque estava exausto e precisava de comer e abrigo e lembrou-se com tristeza como a cabana tinha sido destruída pela tempestade. Mas quando voltou à clareira, foi com surpresa que encontrou a sua pequena cabana intacta, uma lareira acesa e uma modesta refeição em cima da mesa.

Adão soube então que tinha sido o espírito da Mafumeira que criara a tempestade, tal como lhe tinha devolvido a cabana. O homem bondoso sentou-se para jantar e olhou para o lume com os olhos cheios de lágrimas. «Continuarei a plantar novos rebentos até morrer», prometeu a si próprio. «E só cortarei uma árvore Mafomeira por mês, pois é o suficiente.»

E foi exactamente o que fez. Diz-se que Adão viveu durante quase cem anos e que deu o seu último suspiro na floresta. Diz-se que o seu espírito juntou-se à Mafumeira, tal como todos os outros que morreram na floresta e que ajudam a proteger a magnífica floresta daqueles que desrespeitam as suas as árvores e animais.

Esta é a lenda da Mafumeira e é por isso que é tão importante preservar e respeitar as florestas do mundo.

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